Categoria: AWRB

  • Um planeta infernal ajuda a entender outros mundos

    Um planeta infernal ajuda a entender outros mundos

    A cerca de 320 anos-luz da Terra, WASP-189b é um planeta que não entraria em nenhum roteiro de férias. Trata-se de um gigante gasoso com temperatura de equilíbrio estimada em cerca de 3.354 kelvins, tão quente que elementos normalmente encontrados em rochas aparecem em sua atmosfera como gases. Para a astronomia, porém, esse inferno tem uma utilidade: permite observar ingredientes que, em planetas menos extremos, são difíceis de detectar.

    Com o espectrógrafo IGRINS, instalado no telescópio Gemini South, uma equipe internacional mediu magnésio e silício na atmosfera do planeta e comparou suas proporções com as da estrela que ele orbita. Também identificou ferro, vapor d’água, monóxido de carbono e hidroxila. As razões entre magnésio, silício e ferro ficaram compatíveis com as da estrela, dentro das incertezas da medição. Publicado em fevereiro na Nature Communications, o estudo oferece uma evidência observacional inicial para uma ideia usada há muito tempo em modelos de formação planetária: a química da estrela pode dar pistas sobre a matéria-prima dos mundos que se formam ao seu redor.

    A palavra importante é “pistas”. Astrônomos usam a composição estelar como uma espécie de referência para estimar do que podem ser feitos planetas rochosos distantes. Mas WASP-189b não é rochoso. É um gigante gasoso, e os próprios autores ressaltam que a atmosfera de um planeta assim não evolui como o interior de uma Terra. A observação fortalece uma hipótese; não transforma um único caso em lei universal.

    Nem mesmo a expressão “composição semelhante” significa que planeta e estrela sejam cópias químicas. O estudo encontrou proporções compatíveis para alguns elementos formadores de rocha, mas também estimou uma proporção de elementos refratários em relação aos voláteis cerca de 2,4 vezes maior que a da estrela, com incerteza considerável. O universo, ao que parece, não trabalha com kits prontos vendidos em embalagem familiar.

    Também não há notícia de vida, água líquida ou de uma segunda Terra. O avanço é mais modesto e mais útil: medir diretamente a química de um exoplaneta e testar uma ferramenta que poderá ajudar a estudar mundos rochosos no futuro. Às vezes, para procurar condições de vida, a ciência começa pelo lugar onde ninguém conseguiria viver.

    Referência:

    A stellar magnesium to silicon ratio in the atmosphere of an exoplanet, Nature Communications

  • Quem decide o que aparece na bula de um medicamento?

    Quem decide o que aparece na bula de um medicamento?

    ✦ W Explica Ciência

    Da pesquisa ao acompanhamento depois da venda, entenda quem prepara as informações, como a Anvisa analisa as mudanças e por que a bula pode ser atualizada.

    W Rádio Brasil · Reportagem multimídia

    O papel se abre em dobras estreitas. Há nomes difíceis, letras pequenas, avisos que parecem falar baixo e, ainda assim, podem mudar uma decisão. Quem escolhe o que vai parar ali?

    A resposta não cabe em um nome próprio. A bula é escrita pela empresa responsável pelo medicamento, submetida às regras da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e modificada quando novas informações justificam a mudança. É um documento de segurança e de comunicação, não um inventário de tragédias.

    A pergunta importa porque a bula acompanha um objeto íntimo: aquilo que alguém põe no próprio corpo para aliviar uma dor, controlar uma doença ou ganhar tempo. Ela deve informar sem prometer risco zero e sem transformar cada possibilidade em sentença.

    Uma história que começa antes da Anvisa

    A bula não foi inventada por uma pessoa. A palavra vem do latim bulla, associada a uma marca ou selo arredondado usado para autenticar documentos. No Brasil, a história regulatória tem marcos distintos. Um estudo sobre a evolução das normas registra que o Decreto nº 20.377, de 1931, tratou a bula como documento necessário no pedido de licença de uma especialidade farmacêutica. Em 1946, o Decreto nº 20.397 aprovou o regulamento da indústria farmacêutica e estabeleceu regras para rótulos e bulas. A primeira norma específica dedicada à apresentação e ao exame dos textos de bula, segundo o mesmo levantamento, veio em 1959.

    É uma diferença pequena no calendário e grande no sentido: a bula apareceu primeiro dentro de regras mais amplas para medicamentos; só depois ganhou uma disciplina própria. Décadas mais tarde, em 2009, a Anvisa publicou a RDC nº 47, que estabeleceu requisitos para elaboração, harmonização, atualização, publicação e disponibilização das bulas para pacientes e profissionais de saúde.

    Duas versões, dois leitores

    A regulamentação prevê uma bula para o paciente, com linguagem acessível, e outra para profissionais de saúde, mais detalhada tecnicamente. Ambas devem estar disponíveis no Bulário Eletrônico da Anvisa. Em geral, é a versão destinada ao paciente que acompanha a embalagem. A agência também mantém regras para iniciativas de informação eletrônica e bula digital em situações específicas; isso não significa que todo medicamento tenha deixado de trazer a bula impressa.

    As informações abrangem, entre outros pontos, identificação e composição do produto, indicação, modo de uso, contraindicações, advertências, interações, reações adversas, superdose e armazenamento. A bula para o paciente organiza o conteúdo em perguntas e respostas e deve explicar termos técnicos quando isso for necessário para a compreensão.

    Como o texto é feito e analisado

    A empresa titular do registro prepara os textos com base nos dados do medicamento e nas exigências regulatórias. Para certos grupos de produtos há uma Bula Padrão, que serve de referência para harmonizar as informações. No caso de genéricos e similares, essa referência é a bula do medicamento de referência; para categorias como medicamentos específicos e fitoterápicos, a Anvisa pode elaborar a bula padrão. Quando não há uma referência aplicável, a empresa segue as normas e o Guia de Redação de Bula da agência.

    A avaliação não é uma votação sobre um papel isolado da ciência do produto. A bula integra o processo de registro ou de alteração pós-registro, e seu conteúdo precisa corresponder ao que foi autorizado para aquele medicamento. A estrutura da Anvisa inclui, dentro da Gerência-Geral de Medicamentos (GGMED), uma coordenação dedicada a bulas, rotulagem, registro simplificado e nome comercial, a CBRES. Outros setores técnicos podem participar quando a mudança envolve temas de segurança, eficácia ou registro.

    Nem toda alteração segue a mesma rota. Algumas podem ser notificadas e implementadas imediatamente, conforme as regras aplicáveis. Outras dependem de manifestação prévia da Anvisa. Mudanças de indicação, posologia ou ampliação de uso, por exemplo, não se resolvem com uma simples edição do texto: exigem petição de pós-registro. Alterações em seções de segurança, como advertências e reações adversas, também podem exigir avaliação da agência.

    Quando uma Bula Padrão é publicada, medicamentos que a utilizam devem harmonizar seus textos e notificá-los à Anvisa em até 90 dias. A RDC nº 47 prevê ainda prazo de até 180 dias para disponibilização da versão atualizada nas embalagens, contado da publicação no Bulário, como período para esgotamento de estoque. Os prazos e procedimentos variam conforme o tipo de produto e de alteração; por isso, não existe um único cronômetro para toda mudança de bula.

    Como aparecem os efeitos adversos

    Antes de chegar às farmácias, um novo medicamento passa por etapas de pesquisa. Na fase pré-clínica, pesquisadores estudam o produto em células e animais. Nos ensaios em seres humanos, a fase I costuma envolver grupos pequenos e examina principalmente segurança e dose; a fase II avalia sinais de eficácia e continua observando a segurança; a fase III amplia a comparação de eficácia e riscos em grupos maiores e variados. Os desenhos e tamanhos dos estudos mudam conforme o medicamento e a doença. Não há uma sequência mecânica idêntica para todos os produtos.

    Ainda assim, um ensaio clínico não consegue antecipar tudo. Participam dele grupos selecionados, por tempo limitado e em condições acompanhadas. Uma reação rara pode não aparecer antes da aprovação. Um efeito que depende de uso prolongado, de outra doença ou da combinação com vários medicamentos também pode ficar mais visível quando o produto é usado por muita gente, em contextos cotidianos. A vigilância, portanto, não termina no dia em que o remédio recebe registro.

    Depois da comercialização, a farmacovigilância reúne e avalia informações sobre suspeitas de problemas associados aos medicamentos. No Brasil, cidadãos, profissionais de saúde, empresas e patrocinadores de estudos podem reportar suspeitas de eventos adversos pelo sistema VigiMed. A Anvisa também considera outros sinais e dados de segurança para avaliar se é preciso atualizar informações, orientar profissionais, restringir usos ou adotar medidas regulatórias.

    Há uma cautela essencial: um evento ocorrido depois do uso não prova, sozinho, que o medicamento o causou. A avaliação considera a sequência temporal, o que já se conhece sobre o produto, outras explicações possíveis e a evolução do quadro. Notificações são pistas para investigar, não vereditos automáticos. Uma reação suspeita deve ser discutida com um profissional de saúde; não é seguro interromper ou reiniciar um tratamento por conta própria.

    Uma informação que continua em movimento

    A bula é construída a partir de estudos, regras públicas e acompanhamento após a comercialização. Ela pode mudar porque a ciência acumulou evidências ou porque a vigilância encontrou um sinal que mereça atenção. Isso não torna inúteis as informações anteriores, nem transforma todo efeito listado em destino certo. Quer dizer que a segurança de um medicamento é avaliada continuamente, com benefícios e riscos colocados na mesma balança.

    Talvez seja essa a função mais discreta daquele papel: não decidir pelo paciente, mas permitir que pacientes e profissionais conversem com mais informação. E, quando uma nova evidência chega, fazer com que a conversa recomece.

    Fontes e referências
  • A promessa fácil e o preço de abandonar um tratamento

    A promessa fácil e o preço de abandonar um tratamento

    Há sempre um vilão rápido no feed. Desta vez, vem dentro de uma cartela: o antidepressivo. O entrevistado desta coluna conta que passou a receber vídeos segundo os quais a indústria farmacêutica induz as pessoas a se viciarem nesses medicamentos.

    A suspeita cabe numa frase; a saúde mental, não. Antidepressivos podem ter efeitos colaterais e, ao interrompê-los, algumas pessoas sentem sintomas de retirada. Isso, por si só, não prova dependência. Reduzir ou parar o remédio é decisão para discutir com o profissional que acompanha o paciente, não com um vídeo de poucos segundos.

    O homem que ouvi, e que pediu para não ser identificado, conta que deixou o antidepressivo e começou um tratamento homeopático. Na 14ª semana, diz, os sintomas começaram a voltar. Ele continuou e ouviu que, se não melhorasse, passaria a outra abordagem, mais cara. Depois desistiu, voltou ao psiquiatra que o acompanhava antes e retomou a medicação. Relata que teve de enfrentar novamente os efeitos que sentira ao iniciar e interromper o tratamento. É uma experiência que merece ser ouvida. Não é prova de que a homeopatia causou a piora.

    Há outro ponto que não pode ficar escondido no rodapé: CRM não é sinônimo de psiquiatria. O entrevistado diz que pesquisou o profissional e entendeu que estava diante de um psiquiatra. O CRM identifica o registro médico; a especialidade exige qualificação registrada e o respectivo RQE. O próprio CFM lista homeopatia e psiquiatria como especialidades distintas. Um médico pode ter as duas, desde que tenha os registros correspondentes. A impressão do entrevistado não prova que alguém tenha mentido ou se anunciado indevidamente. Para afirmar isso, seria preciso verificar exatamente o que ele consultou.

    E aqui está a distinção que costuma sumir na conversa: o CFM reconhecer a homeopatia como especialidade não prova que ela seja eficaz contra a depressão. O NIH, por meio do NCCIH, aponta pouca evidência de que a homeopatia trate eficazmente uma condição específica. Antidepressivos não são para todo mundo, mas podem ajudar algumas pessoas quando indicados e acompanhados. A crítica que importa não é contra quem procura alívio. É contra o atalho que vende certeza, embaralha credenciais e empurra alguém a trocar cuidado sem entender o que está em jogo. Credencial não substitui evidência. A evidência não cabe em um slogan.

  • Formar médicos também exige espaço para a pesquisa

    Formar médicos também exige espaço para a pesquisa

    Às vezes, uma dúvida que surge diante de um paciente não termina na consulta. Pode se transformar em uma pergunta de pesquisa e, com tempo, orientação e estrutura, contribuir para melhorar o cuidado. Mas essa ponte entre atendimento e ciência não se sustenta apenas na vocação de alguns médicos. Ela depende das condições que universidades e sistemas de saúde oferecem.

    Um comentário publicado na Nature em 12 de outubro alerta para a redução do número de médicos que também pesquisam. Nos Estados Unidos, eles representavam quase 5% da força médica nos anos 1980; hoje, são cerca de 1,5%. No Reino Unido, a proporção de médicos seniores em carreira acadêmica caiu de quase 5%, em 2009, para aproximadamente 3%, em 2025. Os autores apontam obstáculos como financiamento instável, falta de tempo protegido para pesquisa e pouco apoio profissional.

    No Brasil, há um desafio anterior: garantir que todos os cursos ofereçam uma formação consistente. Na primeira edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica, o Enamed, 107 dos 351 cursos avaliados receberam conceitos 1 ou 2, classificados como insatisfatórios. Isso equivale a cerca de três em cada dez cursos.

    O número acende um alerta, mas precisa ser entendido pelo que mede. O Enamed avalia o desempenho dos concluintes em uma prova. Não resume todos os aspectos de cada curso e não mede diretamente se há professores, laboratórios ou tempo disponíveis para pesquisa. Tampouco permite concluir que todas as faculdades de Medicina do país tenham formação de baixa qualidade.

    Há uma ressalva técnica. O Inep reconheceu uma inconsistência nos dados preliminares enviados às instituições, relacionada à nota de corte. O órgão afirmou que a falha não alterou os resultados finais divulgados.

    A avaliação dos cursos e a redução da carreira médico-científica são problemas diferentes. Mas se encontram em uma pergunta importante: como formar médicos capazes de avaliar evidências e, ao mesmo tempo, criar espaço para que alguns deles produzam conhecimento?

    Um ensaio na PLOS Global Public Health descreve barreiras enfrentadas por médicos-pesquisadores em países de renda baixa e média, entre elas a longa formação e incentivos financeiros que favorecem a prática clínica exclusiva. No Brasil, uma carta de perspectiva publicada nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia defende que as escolas médicas fortaleçam suas estruturas de pesquisa e aproximem a investigação da assistência.

    Não é necessário que todo médico se torne pesquisador. Mas é importante que a formação ensine a diferenciar evidência confiável de promessa e a reconhecer os limites de um estudo. Para quem deseja seguir na ciência, são necessários orientação, financiamento e tempo protegido. Sem essas condições, a pesquisa pode parecer uma carreira distante, mesmo para quem começa a graduação interessado em investigar.

    O Enamed aponta que uma parcela expressiva dos cursos teve desempenho insatisfatório na avaliação. O alerta da Nature chama atenção para as dificuldades de manter médicos na pesquisa. São sinais distintos, mas que ajudam a pensar o mesmo compromisso público: oferecer uma formação sólida e permitir que a ciência chegue mais perto da vida dos pacientes.

    Referências

    [1] Keep medical doctors in academia — without them, health-care research will suffer

    [2] Veja lista e notas dos 351 cursos de Medicina avaliados no Enamed

    [3] Inep confirma inconsistência em dados do Enamed enviados às faculdades

    [4] What it takes to become a physician scientist in a low- and middle-income country

    [5] Médico-Pesquisador, Prática Médica e Pesquisa: A Importância do Médico-Pesquisador na Medicina Atual

  • Como a política aprendeu a fabricar dúvidas científicas

    Como a política aprendeu a fabricar dúvidas científicas

    A receita dos políticos para transformar mentira em verdade e fazer você acreditar neles.

    Olha, meus amigos, a gente vive num tempo em que a verdade virou uma mercadoria barata, manipulada ao sabor dos ventos políticos. E o que é mais grave, a ciência, que deveria ser a bússola, acabou virando um joguete nas mãos de quem prefere a narrativa ao fato, a ideologia à evidência.

    Lembro bem da pandemia, um período que expôs a fragilidade de muita gente, mas também a desfaçatez de alguns líderes. No Brasil, o tal ‘kit Covid’ foi um espetáculo à parte, uma espécie de road movie do negacionismo, onde a cloroquina e a ivermectina eram as estrelas de um show de horrores sem base científica. O governo, com seu capitão à frente, transformou a medicina em palanque, ignorando a OMS e os estudos sérios, empurrando para a população um coquetel de placebos que, no fim das contas, só serviu para alimentar a ilusão e, em muitos casos, a tragédia. Era a estrada da irresponsabilidade pavimentada com meias-verdades e um desprezo olímpico pela vida alheia.

    Mas não pensem que essa aberração é exclusividade nossa. Do outro lado do Atlântico, o ‘laranja’ de Washington, Donald Trump, também surfou na onda da hidroxicloroquina, citando um estudo francês pífio, com 36 pacientes e falhas metodológicas gritantes, como se fosse a tábua da salvação. Quando a ciência de verdade, aquela que não se dobra a caprichos eleitorais, mostrou que o remédio não passava de fumaça, ele partiu para o ataque, desqualificando instituições e cientistas. É a velha tática: se os fatos não se encaixam na sua história, mude os fatos, ou melhor, ataque quem os apresenta.

    Essa gente não está interessada em debater, em construir. Eles querem destruir a confiança, semear a dúvida, criar um nevoeiro onde a mentira e a verdade se confundem. É o ‘manufacturing doubt’, a arte de fabricar incertezas, que a indústria do tabaco já dominava com maestria . É o ‘cherry picking’, a seleção a dedo dos dados que convêm, ignorando a montanha de evidências contrárias . É o ‘science washing’, a maquiagem científica para disfarçar a ignorância . E, claro, as ‘falsas controvérsias’, onde um consenso científico sólido é tratado como um ringue de luta livre, só para justificar a inação ou a loucura . Tudo isso potencializado por bots e perfis falsos, criando uma ilusão de apoio popular.

    Mas, em meio a essa névoa de desinformação, surgem os verdadeiros heróis: cientistas que, com a paciência de um monge e a acidez de um bom uísque, vão para as redes sociais, para os podcasts, para as lives, desmascarar cada mentira, cada distorção. São eles que, com dados na mão e a verdade na ponta da língua, tentam iluminar o caminho, mesmo sabendo que a batalha é árdua e que muitos preferem a escuridão confortável da ignorância. É um trabalho de formiguinha, um contra-ataque silencioso, mas essencial para que a razão não seja completamente soterrada.

    E aqui, entre nós, fica a ironia amarga: escrevo este texto, com suas referências e análises, sabendo que a maioria daqueles que mais precisam lê-lo jamais o farão. Afinal, quem se alimenta de narrativas prontas e aplaude a desfaçatez política raramente tem apreço pela leitura, pelo questionamento, pela busca incessante do conhecimento. É um ciclo vicioso, onde a preguiça intelectual se encontra com a conveniência ideológica, e a verdade, ah, a verdade fica à beira da estrada, esperando um carona que talvez nunca chegue.

    O resultado? Uma sociedade que perde a capacidade de discernir, de tomar decisões informadas. A ciência, meus caros, não é um buffet onde você escolhe o que te agrada. É um método, um caminho, e quando ele é sabotado por interesses políticos, quem paga a conta é sempre o povo. E essa é uma conta que sai muito cara.

  • Dermatologia e a farsa da juventude eterna

    Dermatologia e a farsa da juventude eterna

    Enquanto consultórios de luxo prometem a juventude eterna, doenças reais da pele são esquecidas nas sombras da vaidade.

    Na rua, o tempo não para. Mas nos consultórios chiques, a promessa é outra: congelar os ponteiros, apagar as marcas. A dermatologia, antes guardiã da saúde da pele, parece ter trocado o bisturi da cura pela agulha do preenchimento. Bilhões de reais movimentados anualmente no mercado da estética, enquanto doenças de pele negligenciadas seguem sem a devida atenção e pesquisa.

    É um grito silencioso, abafado pelo burburinho das clínicas de luxo. A pele, nosso maior órgão, virou tela para a vaidade, não mais um escudo contra o mundo. A busca incessante pela perfeição estética, impulsionada por padrões irreais e pela mídia, transformou a medicina em um balcão de negócios. Médicos recém-formados, ou de outras especialidades, veem na estética uma rota de fuga financeira, ignorando a ética e o rigor técnico. Aproveitam-se da baixa autoestima, do desconhecimento, da ingenuidade. Vendem milagres que a ciência ainda não comprovou, com riscos que poucos revelam.

    Essa mercantilização da beleza cria uma distorção perigosa. Enquanto a indústria estética prospera, com o Brasil ocupando a quarta posição global em mercados de beleza e cuidados pessoais, a pesquisa e o tratamento de doenças dermatológicas sérias, muitas delas tropicais e negligenciadas, carecem de financiamento e visibilidade. Leishmanioses, hanseníase, e diversos tipos de câncer de pele, que afetam milhões e causam sofrimento real, ficam à margem, esperando por um olhar que vá além do superficial. A obsessão pela juventude eterna nos rouba a perspectiva, nos afasta do natural. O envelhecer, processo inerente à vida, é tratado como inimigo a ser combatido, não como jornada a ser vivida. A pressão social para se manter jovem eimpecável, ditada por consultórios que mais parecem galerias de arte do que espaços de cura, desvia o foco da verdadeira missão da medicina: a saúde e o bem-estar integral.

    O corpo sente, a alma pesa. A pressa de ser perfeito esconde a beleza de ser real. A cidade pulsa, indiferente aos retoques. E a pele, essa velha amiga, continua a contar histórias, mesmo que tentem calá-la. É preciso resgatar a dignidade do envelhecer, a beleza das marcas do tempo, e a prioridade da saúde sobre a vaidade efêmera. A dermatologia precisa voltar a ser ciência, e não apenas um negócio.

  • O mau hálito do Ozempic e o silêncio que ele impõe no cotidiano

    O mau hálito do Ozempic e o silêncio que ele impõe no cotidiano

    Nas conversas informais, nas redes sociais e, por vezes, nos consultórios médicos e odontológicos, um tema tem ganhado espaço, sussurrado entre os que buscam uma nova silhueta ou um controle mais eficaz da diabetes. Os medicamentos análogos do GLP-1, como o Ozempic e o Wegovy, que prometem uma revolução na saúde e no bem-estar, trazem consigo um efeito colateral que, embora discreto, tem um impacto social e emocional inegável: o mau hálito. No Brasil, onde a demanda por esses fármacos cresceu exponencialmente, com um aumento de 88% em um ano , essa realidade se insere no cotidiano de milhares de pessoas, transformando a busca por saúde em um desafio que vai além da balança.

    O cenário brasileiro reflete uma tendência global. A promessa de perda de peso e controle glicêmico tem levado muitos a abraçar esses tratamentos, que podem custar entre R$700 e R$1.299,70 mensais . No entanto, a cada aplicação, alguns pacientes se deparam com uma condição que afeta diretamente a interação humana: um hálito persistente que desafia a higiene bucal mais rigorosa. Não é um mero detalhe; é um sinal que merece atenção, um ponto de interrogação na jornada de quem busca uma vida mais saudável.

    O impacto de um hálito indesejado é profundo. Aquele momento de hesitação antes de uma conversa próxima, o sorriso que se retrai, a ansiedade que acompanha a percepção de um odor que parece incontrolável – são gestos que se somam à experiência de quem já lida com as complexidades de uma condição crônica. A halitose, nesse contexto, transcende o aspecto físico e toca a esfera da autoestima e das relações sociais.

    Mas, afinal, o que causa esse “hálito de Ozempic” que se tornou tema de debate e preocupação? Especialistas apontam para uma combinação de fatores. A boca seca, ou xerostomia, é um dos principais vilões. Os medicamentos GLP-1 podem reduzir a produção de saliva, um fluido essencial para a limpeza natural da boca e para o combate às bactérias. Com menos saliva, o ambiente bucal se torna propício para a proliferação de microrganismos que liberam compostos sulfurados voláteis (CSVs), responsáveis pelo odor desagradável .

    Outro fator relevante é a redução da ingestão de alimentos e os distúrbios gastrointestinais. A diminuição do apetite, comum com o uso desses medicamentos, pode levar a períodos prolongados de jejum, intensificando o ressecamento bucal. Além disso, efeitos colaterais como náuseas, vômitos e refluxo gastroesofágico (DRGE), relatados por até 44% dos usuários , trazem o ácido estomacal para a boca, o que não só contribui para o mau hálito, mas também pode causar erosão do esmalte dentário e sensibilidade .

    O contraste entre os benefícios transformadores dos GLP-1s e esse efeito colateral, que pode parecer menor à primeira vista, é um lembrete da importância de uma abordagem integral à saúde. A perda de peso e o controle glicêmico são conquistas significativas, mas não devem ofuscar a necessidade de vigilância e cuidado com outros aspectos do bem-estar. A recomendação é clara: a comunicação aberta com o médico e o dentista é fundamental. Informar os profissionais sobre o uso dos medicamentos GLP-1 permite uma avaliação mais precisa e a adoção de medidas preventivas e corretivas, como o uso de produtos específicos para estimular a salivação ou o acompanhamento mais frequente .

    No dia a dia, gestos simples podem fazer a diferença: manter-se bem hidratado, escovar os dentes e a língua após as refeições, usar fio dental e evitar longos períodos de jejum. O “hálito de Ozempic” não é uma condenação, mas um convite à proatividade, à escuta atenta dos sinais do corpo e à busca por um equilíbrio que contemple todas as dimensões da saúde, garantindo que a jornada em busca do bem-estar seja plena e confiante.

  • O milagre em pó e a indústria da ilusão

    O milagre em pó e a indústria da ilusão

    A creatina funciona, mas o marketing que a transformou na nova panaceia nacional é apenas mais um truque para esvaziar o seu bolso na busca por atalhos.

    Não quer ler? Ouça o artigo:

    A cena é clássica e se repete em qualquer esquina, academia ou roda de conversa deste país. Alguém saca um pote branco, mistura um pó branco na água e bebe com a solenidade de quem acaba de descobrir o elixir da juventude. A creatina virou a nova religião nacional. Nas redes sociais, influenciadores com dentes brancos demais e músculos desenhados em laboratório vendem a ideia de que, sem ela, você está fadado ao fracasso físico e mental. É a promessa do milagre engarrafado, a solução mágica para a fadiga, a falta de memória e a flacidez. Mas, como tudo que vira febre no Brasil, a verdade está soterrada sob toneladas de marketing e promessas vazias.

    Não é a primeira vez que assistimos a esse filme. O brasileiro tem uma vocação quase poética para acreditar em atalhos. Já fomos a nação do ômega 3, que prometia limpar as artérias e turbinar o cérebro. Já engolimos cápsulas de cogumelo do sol como se fossem a cura para todos os males. Já brindamos com catuaba em busca de vigor inesgotável. E, mais recentemente, vimos a Anvisa ter que intervir na farra das cápsulas de ora-pro-nóbis, vendidas como a salvação nutricional definitiva. A indústria de suplementos sabe exatamente como apertar os botões do nosso desespero por saúde e performance. Eles criam a necessidade, embalam a solução e cobram caro por ela.

    A ironia, no caso da creatina, é que ela não é uma fraude. Longe disso. A ciência é robusta e clara. A Sociedade Internacional de Nutrição Esportiva (ISSN) já cravou: a creatina monohidratada é o suplemento nutricional ergogênico mais eficaz disponível para atletas em termos de aumento da capacidade de exercício de alta intensidade e massa magra. Ela funciona. Ela ajuda a ressintetizar o ATP, a moeda de energia das nossas células, permitindo que você levante mais peso, corra mais rápido em tiros curtos e se recupere melhor. Há evidências sólidas de seus benefícios para idosos, ajudando a combater a sarcopenia quando associada ao treinamento de força. Há até estudos promissores sobre seu papel na neuroproteção e na recuperação de lesões.

    Mas aqui está o pulo do gato: a creatina é útil em contextos específicos. Ela é brilhante para quem levanta peso, para quem faz treinos de explosão, para o idoso que precisa manter a massa muscular para não cair e quebrar o fêmur. Ela não é, no entanto, a poção mágica que vai transformar o sedentário convicto em um atleta olímpico. Se você passa o dia sentado na frente do computador e sua maior atividade física é caminhar até a geladeira, a creatina não vai fazer milagre. O excesso será simplesmente filtrado pelos seus rins e descartado na urina. Você estará, literalmente, urinando dinheiro.

    E por falar em dinheiro, o custo-benefício é a grande falácia dessa moda. O mercado brasileiro de suplementos explodiu, e a creatina lidera as vendas. Potes que custavam uma pechincha há alguns anos agora são vendidos a peso de ouro, impulsionados pela demanda artificial criada pelo marketing digital. Vende-se a ideia de que todos precisam suplementar, ignorando o fato de que uma dieta equilibrada, com carne vermelha e peixes, já fornece uma quantidade razoável de creatina. Para a população em geral, o investimento em comida de verdade, sono adequado e exercícios regulares traria um retorno infinitamente maior do que qualquer pó branco.

    A segurança do uso é outro ponto que merece atenção. Sim, a creatina é segura para indivíduos saudáveis, mesmo em uso prolongado. Mas a banalização do consumo ignora a individualidade biológica. Pessoas com histórico de problemas renais precisam de acompanhamento médico antes de embarcar nessa onda. A suplementação indiscriminada, sem orientação, é um risco desnecessário assumido em nome de uma promessa estética.

    O que vemos hoje não é uma revolução na saúde pública, mas um triunfo do marketing. A creatina foi sequestrada pela indústria da ilusão, embalada como a resposta para a nossa exaustão crônica e nossa insatisfação com o espelho. Ela tem seu lugar, tem sua eficácia comprovada, mas não é a panaceia que os algoritmos tentam nos empurrar goela abaixo. É preciso separar a ciência do sensacionalismo. É preciso parar de buscar atalhos em potes de plástico e encarar a realidade de que saúde e performance exigem esforço, disciplina e suor. O resto é apenas barulho e poeira.


    Referências

    [1] Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Anvisa proíbe suplementos alimentares com ora-pro-nóbis. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/anvisa-proibe-suplementos-alimentares-com-ora-pro-nobis

    [2] Kreider, R. B., et al. International Society of Sports Nutrition position stand: safety and efficacy of creatine supplementation in exercise, sport, and medicine. Journal of the International Society of Sports Nutrition, 14(1), 18. 2017. Disponível em: https://jissn.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12970-017-0173-z

    [3] Candow, D. G., et al. Suplementação de creatina e treinamento de força em idosos: uma revisão sistemática. 2025. Disponível em: https://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=6722983

  • A farsa do etanol e a verdade inconveniente

    A farsa do etanol e a verdade inconveniente

    No Brasil, o debate sobre o etanol no tanque do carro ganhou ares de cruzada. De um lado, a indústria e o governo, com seus números e incentivos. Do outro, uma legião de influenciadores digitais, como o mecânico Alexandre Generoso, o ADG, que bradam aos quatro ventos que o combustível verde é o vilão dos motores, especialmente os de injeção direta. Uma narrativa que, de tão repetida, começa a soar como verdade absoluta para muitos, gerando uma espécie de fé cega na desgraça automotiva.

    Mas, como sempre, a realidade é um pouco mais complexa que os vídeos virais e as teorias da conspiração automotiva. A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), essa senhora que tenta colocar ordem na casa, nos trouxe dados que jogam uma luz diferente sobre a questão. Em 2024, a ANP realizou mais de 13 mil fiscalizações em postos, e quase 28% das autuações foram por comercializar produto não conforme. No caso do etanol hidratado, o problema estava na massa específica e no teor alcoólico. Ou seja, não é o etanol em si, mas o etanol adulterado que faz o motor chorar e o bolso do consumidor sangrar.

    E aqui vai a parte mais importante, para que não haja confusão: os carros Flex são feitos para o etanol! Sim, é isso mesmo. Desde que o combustível esteja com a composição correta, dentro das especificações, ele não vai estragar seu carro. Para desmistificar de vez a lenda urbana, fomos buscar a palavra dos especialistas. Gilberto Pose, da Raízen, e Antonio Alexandre Ferreira Correia, da Petrobras Distribuidora, ambos ouvidos pelo Instituto Combustível Legal, são categóricos: o uso exclusivo de etanol em motores Flex não traz qualquer problema. Pelo contrário, o etanol proporciona maior potência e torque devido à sua octanagem superior. E a história de que é preciso misturar gasolina para “lubrificar” o sistema? Mera balela. Os motores Flex são projetados e dimensionados para o etanol, com tratamento de revestimento das peças que previne oxidação e danos, inclusive no escapamento. A única diferença notável, segundo Correia, é uma menor carbonização do motor com o uso do etanol.

    É o velho truque do gato e do rato, agora com a engenharia a nosso favor. Enquanto a ANP corre atrás dos espertinhos que diluem o lucro na gasolina com etanol anidro demais, ou que batizam o etanol hidratado com substâncias duvidosas, a culpa recai sobre o combustível. Uma ironia sutil, mas perversa: o problema não é a natureza do etanol, mas a natureza humana, sempre disposta a cortar caminho em busca de um trocado a mais. E, nesse jogo, tanto a gasolina quanto o etanol são vítimas potenciais da má-fé, e o consumidor, o eterno refém. A verdade, ao que parece, está menos no tipo de combustível e mais na sua procedência. E isso, meus caros, é um problema que nem o mais engenhoso dos motores pode resolver sozinho, mas que a informação clara e a fiscalização rigorosa podem, quem sabe, mitigar. Pensem nisso na próxima vez que o algoritmo lhes sugerir um vídeo alarmista.

  • Consultórios de luxo e fraudes de reembolso: o lado sombrio da nova dermatologia

    Consultórios de luxo e fraudes de reembolso: o lado sombrio da nova dermatologia

    Existe um momento, dizem os neurologistas, em que o cérebro decide que a dor já foi longe o suficiente. Não é cura. É adaptação. E essa diferença — invisível nos exames, palpável em quem vive — é o que nos separa de uma medicina que cura para uma que apenas adorna. Ou pior, que explora. Caminho por um consultório no interior de São Paulo, o cheiro de lavanda artificial misturado ao de antisséptico, e me pergunto: a quem serve tanto luxo?

    Não se trata de inveja, mas de uma inquietação que se aninha na garganta. O dermatologista, jovem, talvez nem dez anos de formado, ostenta um espaço que faria inveja a cirurgiões plásticos com décadas de bisturi. Uma opulência que contrasta com a realidade da saúde pública e, por vezes, com a própria remuneração média da categoria. Dados recentes apontam que um dermatologista no Brasil pode ter uma média salarial que varia de R$ 7.660 a R$ 12.177 mensais, com especialistas em clínicas maiores alcançando entre R$ 20.000 e R$ 60.000. Valores expressivos, sim, mas que dificilmente justificam a arquitetura de um templo ao botox e ao preenchimento, onde cada procedimento pode custar entre R$ 1.500 e R$ 5.000, ou mais.

    O Brasil, afinal, é o segundo maior mercado de estética do mundo, um setor que movimenta bilhões e cresce a taxas anuais de 7% a 14%. Não há nada de errado em buscar o bem-estar, em suavizar as marcas do tempo ou em corrigir o que nos incomoda. A questão reside na mercantilização da pele, na transformação da saúde em um produto de luxo, acessível apenas a quem pode pagar. E, para quem não pode, surge a sombra do “reembolso assistido”.

    Essa tática, que se disfarça de facilidade, é um abismo ético. A clínica oferece-se para cuidar de todo o processo de reembolso junto ao plano de saúde, pedindo, em troca, o login e a senha do paciente. Em muitos casos, o paciente é “isento” do pagamento inicial, acreditando que está recebendo um benefício. Mas o que se esconde por trás dessa cortina de fumaça é uma fraude. As clínicas emitem notas fiscais com valores inflados ou fracionados, buscando maximizar o retorno financeiro. O paciente, sem saber, torna-se cúmplice de uma ilegalidade.

    As consequências são brutais e se aprofundam. Planos de saúde, como Bradesco, SulAmérica e Amil, estão endurecendo as regras, exigindo comprovantes de pagamento bancário (TED/Pix) e, pior, cancelando contratos de segurados envolvidos. O Tribunal de Justiça de São Paulo tem proferido decisões duras, considerando nulos os contratos de reembolso assistido. Mas a punição vai além: operadoras estão bloqueando e excluindo vitaliciamente beneficiários e seus familiares em casos comprovados de fraude. Empresas contratantes, ao serem notificadas sobre fraudes de seus funcionários, têm aplicado demissões por justa causa, transformando a busca por um atalho em um drama pessoal e profissional.

    Para os médicos e clínicas, os riscos são igualmente severos. A prática de solicitar reembolso sem o desembolso efetivo do paciente pode ser enquadrada como estelionato ou fraude, com implicações criminais. Contratos de cessão de direitos de reembolso são declarados nulos pela justiça, deixando clínicas desamparadas juridicamente. Além do dano à reputação, há a possibilidade de processos éticos no CRM e ações criminais. O setor de saúde suplementar, que perdeu entre R$ 30 e R$ 34 bilhões em fraudes e desperdícios em 2023, está investindo pesado em tecnologia – reconhecimento facial, auditorias rigorosas e cruzamento de dados eletrônicos – para identificar notas fiscais infladas ou fracionadas.

    É a pele que sangra, não de um corte, mas de uma ferida na confiança. A medicina, que deveria ser um porto seguro, transforma-se em um campo minado de interesses. E nós, os pacientes, os cidadãos, os corpos que habitam essa informação, somos deixados com a pergunta suspensa no ar: até onde vai a busca pela perfeição, quando ela nos custa a própria dignidade?